Entrevista ao The Legendary Tigerman, produtor do novo álbum dos The Poppers.

Para os mais famintos de rock-n-roll, o terceiro longa-duração dos The Poppers chega finalmente em 2017 com o compromisso de satisfazer qualquer gula. Editado pela Sony Music e com o selo da Blitz Records, Lucifer foi gravado no Black Sheep Studios e produzido pela Tigre Discos, produtora do Paulo Furtado, conhecido entre os admiradores como o The Legendary Tigerman.

O convite ao Paulo Furtado para assumir a produção deste disco foi um incentivo perfeitamente adequado. A sua abordagem aos artistas não é de todo discrepante e é feita de uma forma tão natural como se de canções se tratasse.

Envolver sem subordinar, tornou-se genuinamente o mote de todo o processo de desenvolvimento do disco. “Tento aproximar-me o mais possível e, no caso dos The Poppers, foi um embate um bocado violento, mas graças à generosidade dos membros da banda, acabou por revelar-se o contrário”, diz Furtado. E acrescenta, “tu interferes o quanto as pessoas te deixam interferir. Ali, fui mais um membro da banda, com a agravante de ser um Popper que estava a ver as coisas de fora. E eles tiveram a generosidade de embarcar nessa visão que era um bocadinho diferente da inicial”.

Enquanto produtor, o músico sublinha o dever de saber como destacar as melhores qualidades de cada elemento sem comprometer o coração da banda. “No caso dos The Poppers foi interessante perceber que pequenas mudanças na forma como alguns instrumentos eram tocados – e não há nenhuma maneira certa de os tocar – contribuíram para que o disco saísse bem”, esclarece.

No fundo, maximizar cada canção e direccioná-la directamente às pessoas é crucial para que se crie o melhor disco possível naquele momento e explica que “quando estás a tocar, não percebes o que estás a construir. Estás a tentar escrever uma coisa que te é emocionalmente muito próxima e não percebes muito bem o que podes fazer para melhorar. Estando fora, consegues ter uma visão dupla: por um lado, estás desapegado das músicas, por outro, tens um olhar mais pragmático sobre o que está a acontecer”.

Muitas vezes ausente devido às tournées internacionais, as primeiras amostras foram enviadas ao músico alguns meses antes da gravação final. “Não estava em todos os ensaios. Por mês, ia a uns três ou quatro ensaios e trabalhamos um bocadinho à distância. Enviavam-me as maquetes que combinávamos nos ensaios e fomos trabalhando assim”, refere Furtado.

Num trilho que se demonstrou bastante imprevisível, a determinação de Lucifer revelou-se admirável. “Às vezes estás meses a trabalhar para fazer as coisas de uma determinada maneira, mas, podes chegar a estúdio e, de repente, algo acontece e tens de estar disponível para se for uma boa ideia, segui-la por mais arriscada que seja”.

Por exemplo, antes de entrarem em estúdio, o baixista saiu da banda. “As músicas iam funcionando razoavelmente sem o baixo, até o momento que gravamos a primeira: começo a gravar as primeiras guitarras mais ou menos a substituir o baixo e apercebo-me que a coisa não ia funcionar assim”. Numa entrega total, Furtado acabou por gravar os baixos com um baixo destro – o músico é canhoto – e, “estranhamente, havia um baixista dentro de mim que cumpriu razoavelmente isso”.

Apaixonado por sonoridades de rock’n’roll vagarosas, um pouco vazias até, “tinha vontade de ouvir a voz do Rai mais próxima, mais nua do que em todo o disco e não havia nenhuma canção que tivesse isso”, conta. Da vontade ao desafio, convenceu o Rai (vocalista) a fazer uma versão completamente diferente e desconstruída da “Tennage Kicks” dos Undertones. Aos dois, juntou-se o Bonés (guitarrista), seguiram para o estúdio e gravaram-na em dois takes: o de voz ficou directo, ou seja, gravado ao mesmo tempo. No segundo, a sua captação foi praticamente definitiva.

As contribuições para o disco foram chegando de uma forma muito espontânea graças à relação colectiva que se consolidava não só entre os músicos, mas também com o Black Sheep Studios. Nas palavras do Furtado, “às vezes em estúdio há um certo distanciamento entre quem está na mesa de mistura e quem está a gravar ou a produzir. Ali estávamos todos no mesmo sitio”.

Aliado à liberdade de experimentação sempre presente no estúdio, somou-se um ambiente familiar que lhe é muito característico. “O espaço tem um equipamento incrível e, na verdade, é como uma casa que nos acolheu. Essas coisas transformam o modo como a música chega às pessoas. O BB, como o guru do estúdio, passou imenso tempo connosco: gravou uns delays nas guitarras e manipulou os pedais que ficaram incríveis no disco”, acrescenta. Com a sua personalidade singular, trabalhar com o Guilherme Gonçalves foi igualmente uma experiência espantosa, pois “é híper talentoso, muito generoso e está completamente em sintonia dentro da estética e do espirito do que está a ser feito”, conta Furtado.

A dedicação dos The Poppers ao rock’n’roll foi inteira. O amor e o trabalho arriscado mesclaram-se em Lucifer, resultando num álbum que, segundo o Paulo Furtado, será um dos melhores a serem lançados em Portugal em 2017. Indispensável? “Olhar para trás e achar que foi o melhor que se podia fazer. O disco é uma espécie de fotografia de uma banda ou artista num determinado momento. Se a fotografia ficou boa, é como ficou. É esse registo que vai ficar daqui a 20 ou 30 anos”.

A apresentação de Lucifer vai ser no dia 28 de Janeiro às 22h30 no Musicbox, em Lisboa.