Prestando total atenção à música que se faz em Portugal, torna-se cada vez mais claro perceber as suas transformações. Há 12 anos de volta desta arte, a Raquel Lains, promotora da Let’s Start a Fire é ainda mais otimista sobre o novo panorama musical e acredita no crescimento contínuo das rotas não tradicionais da indústria. Isso, e uma imensa vontade de ir cada vez mais longe.

Existem várias premissas indispensáveis para narrar o percurso da Raquel. Tudo começa em Leiria. Durante os intervalos da escola, aquela loja de música no centro comercial Maringá, a Auditu, tornou-se paragem obrigatória durante muitos anos. Aumentava a curiosidade pelos discos e as sugestões da proprietária “que tinha um gosto extraordinário” alimentavam a vontade de não parar de ouvir música.

Até que veio para Lisboa. Entrou na Universidade Católica para estudar Comunicação Cultural, esperando que dentro das múltiplas possibilidades e saídas profissionais, descobrisse a sua vocação. “Enquanto desfolhava o jornal Blitz, encontrei um anúncio duma editora que precisava de um colaborador. Telefonei logo. E consegui o emprego”, refere. Era na Sabotage e na Zounds. “Conhecer o Zé Maria foi amor à primeira vista”, conta entre gargalhadas. Aí fez um pouco de de tudo, da assistência de produção de concertos, à promoção, passando pelo desenvolvimento de conteúdos e gestão do relacionamento com as editoras nacionais e internacionais.

Logo após a sua saída da Sabotage, foi contactada pela Universal Music Portugal para fazer uma substituição como promotora de rádio. Felizes acasos, “o que era suposto serem 15 dias, durou 2 anos”, refere. Daí, aproveitou todos os benefícios de estar a trabalhar num major, e aplicou-os naquela que era a sua prioridade: criar uma promotora musical em nome próprio.

E aconteceu mesmo. Estava em 2004 e o ímpeto foi dado durante o curso de Produção e Marketing Discográfico na ETIC. Fã incondicional dos Mão Morta, Raquel decidiu que o seu trabalho deveria ser sobre eles. Após o primeiro contacto, “ofereci-lhes os meus serviços de promotora sempre que precisassem”. A proposta foi aceite para o lançamento do álbum Nús. “Este foi o primeiro trabalho que fiz a sério com a Let’s Start a Fire”.

Como mote, a Let’s Start A Fire trabalha somente com bandas com as quais a Raquel se identifica de forma total, fugindo a géneros, nacionalidades e reconhecimento. É a qualidade sonora e empatia musical quem decide e não se inibe na atenção e entrega dispensada aos músicos, garantindo sempre que a divulgação de cada disco ou banda é trabalhada especial e individualmente.

“Basicamente, o meu papel é divulgar a música junto dos meios de comunicação. Sem essa divulgação, a maior parte do público não chega a conhecer as bandas que por aí andam”, explica. Apesar do peso cada vez mais forte das redes sociais, a divulgação nos media continua a ser essencial para uma banda chegar ao grande público e conseguir ser conhecida por ele.

Quando é que um artista sabe que chegou a altura de contactar uma promotora? Se a sua identidade não está bem esclarecida, “a imagem não será coerente e a sua música não estará preparada para ser mostrada ao público. Quando a banda sabe a sua direção e sabe bem a música que quer fazer, penso que é aí que se encontra preparada para dar o passo de se mostrar ao público e à própria indústria musical”. Quase sem exceção, são as bandas que a procuram. Atualmente, a Raquel é responsável pela promoção dos Mão Morta, Pop Dell’Arte, The Legendary Tigerman, Dead Combo, peixe:avião, Sean Riley & The Slowriders, Terrakota, DJ Ride, e tantos outros.

De postura divertida e amorosa, a Raquel não esconde que o maior desafio da sua profissão é o espaço cada vez mais diminuto nos media dedicado à música. No entanto, Raquel tem conseguido ultrapassar as resistências e toda a sua experiência tornou-a numa das promotoras independentes mais importantes do nosso país.

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