Pedro Paulos: A música portuguesa já não é um segredo

“Eu tocava percussão, umas latas e assim, enquanto os outros tocavam guitarra. Eu nunca tinha aprendido a tocar guitarra”

“Sou o Pedro Paulos, tenho 30 anos e faço imensas coisas que para uma pessoa de fora parece que sou super ocupado, mas na verdade sou um tipo bastante preguiçoso”. Domina o formato podcast com mestria. É o autor do blog musical revivalista “Brandos Costumes”, deliciando os ouvintes com a música portuguesa de outras décadas. Ao mesmo tempo, é um dos criadores do programa “Obrigado, Internet”, ao lado de Fernando Alvim e Nuno Dias.  Sejamos sinceros: duas mãos cheias não chegam para transportar tudo o que Pedro Paulos (PP) tem para nos brindar.

Polivalente por natureza, PP movimenta-se um pouco por todos os lados. Faz produção, jornalismo em várias vertentes, escrita para rádio e comentário humorístico. Como chegou até aqui? “Não foi sempre assim. Tive trabalhos horríveis, fui editor de vídeo, tive bandas punk, passei som em discotecas, já fiz imensas coisas”. Queria a sua vontade que seguisse jornalismo, mas os pais achavam que devia seguir informática. “Eu aceitei. Depois desisti a meio, e passei para os audiovisuais porque queria ser realizador de cinema”. Contudo, não foi essa a rota que percorreu.

A música esteve sempre lá, “mas nunca a um nível tão profundo como agora”, diz. Na altura da escola, juntava-se com os amigos mais próximos e fingiam que tinham bandas. “Já havia um interesse, mas não era musical, era mais de “glamour da coisa”. Eventualmente isso acabou por culminar numa coisa maior”. Por um lado, o acesso à internet que lhe foi permitido muito cedo, por outro, os amigos do metal, ambos foram fundamentais para aguçar a sua curiosidade e alimentar o conhecimento. “Eu tocava percussão, umas latas e assim, enquanto os outros tocavam guitarra. Eu nunca tinha aprendido a tocar guitarra”, comenta entre gargalhadas.

Assistiu sozinho aos seus primeiros concertos. No 9º ano, um amigo de um amigo gravou-lhe uma cassete com clássicos de hardcore como Time X e X-Acto. Acabara de chegar o cartão de embarque para o cenário underground da música portuguesa.

No circuito delirante dos concertos, mosh e stage diving, despontou a vontade de fazer música. O processo avançou rapidamente e culminou nos The Youths, juntamente com o Rui Mata, o Vairinhos e o Nuno Sota. “Ensaiamos no Blacksheep Studios em 2006. A banda tinha uma garagem e eu penso que fizemos uns três ou quatro ensaios aí. Lembro-me que o estúdio tinha um equipamento do caraças.”

Tour marcada em Espanha, “na altura, o Sega [X-Acto, Renewal, Sannyasin, Vicious Five, Men Eater, The Legendary Tigerman] entrou no meu lugar. Imaginem o guitarrista da banda com quem eu entrei no hardcore, os X-Acto, a substituir-me. Acabou por ser um fechar de ciclo incrível”.

Neste complexo de testes e experiências, encontrou no new rave a agressividade do hardcore, mas de outra maneira. “Aquilo tinha uma coisa cosmopolita, mas ao mesmo tempo sentia que não era uma coisa assim tão distante. Eram apenas diferentes”. Aos 21 anos começou a fazer música de dança. O espetro musical de possibilidades foi ampliando: “abri os horizontes para tudo, não só para música de dança, punk com sintetizadores, cenas mais esquisitas e acabei por chegar onde estou agora”.

No apogeu do seu interesse pela música portuguesa, esteve o fascínio pelo rock. Entre mixtapes e o apoio do Rodrigo Moreira [“Até tenho amigos que são”], surgiu o podcast “Brandos Costumes”. “De música portuguesa fiz quatro mixtapes. Como não tinha voz começou a ter alguma repercussão internacional”, refere. Um mês parado enquanto procurava o título para o seu novo projeto, um amigo do Porto disse-lhe “pode chamar-se brandos costumes, por exemplo”. Uma semana e meia depois já estava no programa “5 para a Meia Noite” a ser entrevistado pelo Nuno Markl. “As coisas aconteceram de uma forma muito rápida e em dois anos consegui transformar completamente a minha vida. Foi tudo ao calhas, é só fazer as coisas, é o único conselho que eu posso dar”.

Difícil é enumerar os convidados de luxo com quem teve o privilegio de partilhar umas horas de conversa. Henrique Amaro, Tozé Brito, Pedro Mateus (X-Acto, Sannyasin), Manel Cruz (Ornatos Violeta, Supernada), Rui Pregal da Cunha (Heróis do Mar), António Avelar de Pinho, Dina, Lena d’Água…”A cena mais surpreendente é perceber que os teus heróis são pessoas mesmo fixes. Por exemplo, a entrevista com o Pedro Saraiva dos D.R.Sax foi na Casa da Música e durou meia hora, o que para mim é muito curto. Se for em papel, 20 minutos é gigantesco, mas falado não, porque eu tenho um episódio de uma hora e tenho de o encher. Mal desligo, ele falou imenso! Entrevistei o Carlos Trindade no CCB, que me contou cenas sobre o António Variações e assim, só que eu meti o microfone errado. Então, depois tive de ir a casa dele no Alentejo fazer a 2ª entrevista. Cenas que acontecem”.

No coração de “Brandos Costumes” está a diferença: encontrar canções que realmente marcaram a história da música portuguesa. “E é sempre esta a mesma ideia. O que importa é a música por si. E é uma coisa um bocado desde tempo: as músicas é que importam, não importam os discos”, justifica. Olhando para trás, considera que este é o momento auge da música feita em Portugal.

Na sua opinião, “geralmente quando as pessoas falam de música portuguesa, há dois períodos: o boom do rock que é como se fosse o momento de ouro, mas que não foi”. Segundo o próprio, “as bandas eram todas grupos de baile, não haviam concertos. Havia uma festa tocavam e tocavam covers, tudo. Começam a tornar-se bandas à força e aquilo não deu bem para toda a gente”. Hoje, ao contrário, faltam as pessoas. “Eu falo sobre o passado, mas é para mostrar que houve muita coisa que não teve a atenção merecida naquela altura. Hoje, temos milhentos artistas bons, mas está a faltar a outra parte, que é a procura. Há tanta coisa, que a maior parte das pessoas está a ouvir o mais comercial.”

Se existem tantas músicas como pessoas, é um espaço que não tem limites. Serão elas sempre boas? Para PP “a pior música de sempre não existe, porque pode ser sempre importante para alguém. Acho que isso é que tem valor. A pior música que eu ainda não ouvi e que se calhar é incrível, porque não chegou até mim e provavelmente vai mudar a minha vida”.