Ser Imortal, Ser Jean-Luc Godard

“La photographie, c’est la vérité et le cinéma, c’est vingt-quatre fois la vérité par seconde…”

Entre 4 e 13 de novembro de 2016, o espectador teve a oportunidade de integrar uma expedição única à obra completa de Jean Luc-Godard, um dos fundadores da nouvelle vague. Godard vu par… – título do simpósio internacional da 10.ª edição do Lisbon and Estoril Film Festival foi a homenagem merecida àquele que é, sem dúvida, um dos cineastas mais influentes e polémicos da sétima arte.

A forma como são construídas as conexões visuais na filmografia de Jean-Luc Godard que ultrapassa o arquétipo de autor modernista ou de mestre do cinema de vanguarda revelam que o realizador é uma figura emblemática no ponto de convergência entre o cinema e a fotografia. Já dizia a personagem Bruno Forestier em Le Petit Soldat (1963): “La photographie, c’est la vérité et le cinéma, c’est vingt-quatre fois la vérité par seconde…”.

Em todos os seus filmes, a fotografia como propriedade valorada é altamente ridicularizada e o modo indireto de questionar o que está a ser observado é o seu fundamento. Em Les Carabiniers (1963), por exemplo, a ideia de que colecionar fotografias é sinónimo da apropriação da realidade é puramente enganadora. O simbolismo presente no retorno dos dois soldados que nada trazem consigo senão uma mala com postais expõe a substituição da coisa real por uma coleção de imagens.

As personagens e as suas ações são criadas como dispositivos complexos e convocam, deliberadamente, a memória. A própria natureza da fotografia permite fixar e concentrar a atenção num só objeto, levando o observador a acreditar na possibilidade de resistir ao tempo.

Assim, o espaço que esta ocupa na obra de Godard é tão vasto quanto a sua exploração que se alterna entre a imagem fixa (em Sauve Qui Peut (la vie), 1980), à publicidade (em Une Femme Mariée, 1964) até ao fotojornalismo (em Cinétracts, 1968). No fundo, o realizador encara-a como um sinal social pertencente a uma ideologia ou crença popular e o resultado é a construção de uma afinidade puramente analítica: quando entra no seu trabalho é geralmente através do domínio dos média; no ecrã, torna-se tanto objeto de crítica cultural como de fascínio cinematográfico.

Na configuração de imagens miméticas encontra-se uma forte componente filosófica que se alia ao cariz histórico e político tão característico do cineasta. Por toda a sua complexidade, a destilação das narrativas de Jean-Luc Godard, esse enfant terrible, atravessa astutamente a audiência, interferindo com as suas sensações. Será esta a melhor maneira de convocar a Humanidade para as suas obrigações?

Da ficção ao documentário, passando pela reportagem televisiva à literatura, Godard transforma-se consoante a sua vontade. Mais do que um depoimento contextual, Jean-Luc Godard será sempre o protagonista eterno da sua história. “Devenir immortel… et puis… mourir? Com toda a certeza.