O movimento aparenta-se pendente.

“Enquadrado na linguagem surrealista, o artista manifesta-se subversivamente”

A fotografia tem ocupado um lugar de destaque na cena artística no sul de África. Hoje, uma nova geração de artistas locais encontrou nesta arte, uma das fórmulas mais eficazes para celebrar, questionar e representar a dinâmica de um continente em contínua ascensão.

Mário Macilau (MZ, 1984) é uma das figuras mais impressionantes desta vaga. Aos 14 anos, com uma câmara fotográfica emprestada, começou por fotografar os camponeses que traziam os produtos agrícolas das zonas rurais até Maputo. A revelação das imagens era feita em casa, numa sala escura improvisada. Pela imposição da sua curiosidade, trocou o telemóvel da mãe por uma Nikon FM2 e fez do entusiasmo a sua profissão.

Provocadora, misteriosa e intensamente humana, assim é a narrativa visual de alguém que durante a sua infância partilhou as ruas da capital moçambicana com a pobreza. Mário Macilau retira da sua experiência pessoal, a sensibilidade que domina o sujeito retratado. Numa região onde o desequilíbrio – social, politico, económico e ambiental – teima em permanecer, o fotógrafo encontrou nesta lacuna a oportunidade para manifestar a autenticidade do povo africano.

Com toda a sua história e amplitude, as fotografias a preto e branco evidenciam a composição, a luz, a sombra e a textura num ensaio visual único. Desta forma, Macilau – que opta sobretudo pelo close-up – quebra as barreiras entre as pessoas, procurando enfatizar a humanidade existente: numa atuação contra quaisquer estereótipos, as personagens pousam com dignidade e confiança perante um cenário caótico e incontrolável.

A representação das diversas minorias, maioritariamente isoladas, torna-se fundamental para a sua inserção no lugar e no tempo. Na série The Price of Cement são os homens e crianças que, submetidos ao perigo do trabalho ilegal, representam uma sociedade sobrevivente. Em Forgotten, são os rostos envelhecidos que caíram no esquecimento, qual contradição dos valores ancestrais. São os jovens que em Moments of Transition circulam entre a a tradição e os novos padrões culturais. São as convicções, os sonhos e a impossibilidade que confrontam a ternura da infância em Growing in the Darkness. É a relação predatória entre o Homem e a Natureza em Living on the Edge.

Mário Macilau recebeu recentemente o prémio The FP Magazine’s Global Thinkers Award (2015) e tem sido participante em diversas exposições, com destaque para “Pangaea: New Art from Africa and Latin America” na Saatchi Gallery (2014), “Making Africa” no Vitra Design Museum (2015) e a 56ª Bienal de Veneza (2015). A sua série Solo Project está atualmente patente na Galeria Belo-Galsterer em Lisboa.

Apesar do seu sucesso, Macilau afasta-se de qualquer valorização excessiva e mantém-se fiel à sua missão: documentar os lugares e as pessoas invisíveis do seu país. Na sua plenitude, a obra de Mário Macilau é um discurso que desencadeia a forte convicção de que as raízes da humanidade são a única compensação da experiência mundana do individuo.