Uma music manager em Portugal: entrevista a Rafaela Ribas

“A música não me pagava as contas e disse para mim que “musica, agora, só para ouvir”

Rafaela Ribas é a diretora de uma das agências mais relevantes da industria musical em Portugal, a aFirma. Intransigente e com uma habilidade inata de organização, Rafaela é uma mestre do agenciamento e management de carreiras e trabalha atualmente com bandas como D’ALVA, Keep Razors Sharp, Mazgani, Miguel Angelo, Mazgani e Sean Riley & The Slowriders.

Movida pela sua própria curiosidade, em 1997 Rafaela parte para Londres porque “queria sair do Porto e ir para um sitio onde houvesse muita música. Eu adorava tudo o que era musica britânica e achei que Londres era espetacular”, conta. Candidatou-se ao curso de Engenharia Eletrotécnica e entrou. O primeiro passo já estava dado.

“Enquanto estava a tirar o curso, ia a muitos concertos e via coisas mais underground. Gostava muito de seguir esse circuito de bandas mais pequenas e, como sempre tive uma grande capacidade e tendência para o planeamento, acabei por ter amigos que tinham bandas e que me vinham pedir apoio”, explica.

Mais tarde, abriu a sua primeira editora discográfica com o Christian Landone, hoje consultor técnico da sua atual empresa. “Naquela altura, o Christian estava a fazer um doutoramento, era meu professor e ficamos amigos. Como tínhamos o interesse em trabalhar em música, montamos uma empresa discográfica”, refere a Rafaela. “Tinha bandas muito pequeninas, e lançávamos os discos, fazíamos o management e o booking das bandas, que era da minha responsabilidade, e gravávamos os discos, que era da responsabilidade do Chris”. No total, foram lançados oito ou nove discos, mas “nunca chegaram a top nenhum e só nos fizeram perder dinheiro”, refere a agente entre risos. “Mas foi uma ótima escola”.

Quando Rafaela regressou a Portugal, a empresa fechou. “A música não me pagava as contas e disse para mim que “musica, agora, só para ouvir””, comenta. Mas isso durou só 3 meses. “Quando cá cheguei conheci os Easyway que me convenceram a trabalhar com eles e comecei a fazer o management da banda, mas sem empresa associada”. Predestinação? Provavelmente.

Tomar as rédeas de um negócio na música pode ser estupendo, mas é igualmente rigoroso e exige um “malabarismo” entre diversas funções em simultâneo. “O agente é o representante do artista, aquele que define as estratégias e faz a ponte entre o artista e toda a sua envolvência, desde editoras, imprensa, produtoras de espetáculo, fãs, etc. É a pessoa que aconselha e sugere, juntamente com os artistas, o melhor para a sua carreira. Nesse sentido, acho que o manager serve para impulsionar o trabalho criativo que os artistas fazem”.

Contudo, e “contra mim falo, a importância daquilo que eu faço é relativa. Um artista a solo, que saiba muito bem aquilo que quer e que tenha um “know-how” prévio, não precisa de um manager e consegue fazer as coisas sozinho. Atenção, isto se trabalhar só em Portugal, porque no mercado internacional é impossível”.

A prática faz a perfeição, e na música não é exceção. Para todas as bandas que estão no principio do seu percurso, Rafaela sublinha o papel fulcral dos concertos: “é tocar, tocar e tocar até serem bons. Enquanto não forem bons, não vale a pena darem o salto”. Nas prioridades, ressalta os ensaios e o método de trabalho, “porque se quiserem ter uma banda que quer crescer, é preciso ter um horário, uma meta, definir os estilos musical e estético, alimentar as redes sociais. E só quando chegarem a um ponto que têm alguns fãs, só aí é que deve haver uma abordagem a terceiros – seja uma editora, a um agente, ou a outro. Antes disso, não vale a pena. Ter um manager envolvido numa fase bastante cedo, pode moldar aquilo que vai ser a banda no futuro num formato que poderá não ser aquilo que lhes é mais natural. Só assim se pode aprender para se saberem defender na sua vida profissional”.

No contexto musical português, Rafaela é da opinião que a relação entre os agentes e os managers deveria ser mais abrangente. “Porque aqui, ainda agem um bocadinho de forma individual”, justifica. “O agente cultural não é uma profissão legalmente com regras, não está reconhecido nas finanças, não há uma “Ordem dos agentes” ou um código deontológico para a nossa profissão e era muito importante se existisse. Isso permitiria criar lobbies e regular esta profissão. Se fosse conseguido, acredito que o nosso papel seria muito mais significativo”.