letter to tanja

 

Behind hectic steps. The urge to escape from ourselves rounding our backs, the quadrangular space preventing us from leaving it. I often stop to see the as two closed eyes: the greatest relevance of a spiritual landscape. Starting from the contemplation, a thousand visions so near to me in opposition to the reduced reality.

 

I know I’m on the right side even if I always walk on the golden left one. Knowing how to observe is a revolutionary act.

 

 

canção-ventre

 

suavemente sossegada

é a voraz carnívora

tecida em rendas e aguaceiros

a camélia que no ventre afaga

o toque de uma língua precipitada

e dança como a serpente

na trepidação mais pura

dos nervos, da água e de outras fragilidades.

 

fêmea em lágrimas e pérolas

no medo é fascínio

que ora sussurra em chamas

ora habita em silêncio

e entra no amor de qualquer maneira

quando invoca o delírio da natureza

que é o seu corpo em fúria.

3/

 

Há manhãs que são gomos de tangerina. Mãos em concha. Luas mornas, rubras, meio cheias. Elementos que se contraem e se expandem num bailado de pirotecnia e cânticos gigantes. A leitura é vaga, susceptível aos retratos falsos. Mesmo assim, em misteriosos rumores, as previsões do oráculo avançam. Do clarão sereno à metáfora, lapidam-se os diamantes.

 

Há manhãs que são lume. Acesas, despertam-se em artérias solares, as mais ofegantes de todas. fêmea em fúria. Resilientes, trémulas da raiz das coxas à boca, agarram-se à expressão. A saliva adolescente dos sexos, deixam-se escorrer como serpentes.

 

Há manhãs que são doces. Têm nos lábios a cor negra das amoras e assobiam perfumes. Às vezes, conhecem-se pela sua timidez, pela orla estalar da chuva. Sozinhas, vivem na desordem das raízes atadas aos pulsos. A linguagem que não diz.

EARTHS’ RUT IS THE POETRY

 

I float and I am the virgin bird who loves
its first flight with the same accuracy
and resistance of the rocks on fire.
I go through the orbits, the nerves,
the soaking of my caustic tears.
it still rains on the harvest.
A deliberated and fragrant suspension
that adorns her vagina with petals, sesame,
turmeric and longing.
it wasn’t the snakes, the white feathers
or the evil eye
but the astrological phenomena
thrown to the groans of the earth.

mariposa

 

se ao menos tivessem sentido alguma vergonha. Se ao menos as línguas feridas se escutassem para contrariar o passado, não choraria mais cristais.

 

num sopro circular, nesse movimento redondo de mariposa, finalmente sente-se mais próxima da solidez. Asas abertas, o corpo leve pousa no deserto e reconstrói a paisagem. Sem imitações, apesar de tudo. Todos os corações-pedra, as trovoadas secas, os esqueletos de corais, as trepadeiras envelhecidas, o iodo das dunas queimadas, os olhos inundados de chuva, as montanhas de metal, o hexagonal dos dentes marcado na pele, os fluídos marinhos, os azulejos nus, o vício feliz das estevas, o tamborilar aéreo dos dedos. A pouco e pouco, as palavras respiram. Já estão menos loucas, menos cansadas.

 

entre dois seios esculpidos em veias azuis, correm rios de água doce e a mansidão do universo. Em silêncio, semeio arquipélagos de nomes novos para o mundo. Arrepio-me sempre, entre cada semente, e espero pacientemente que delas nasça a ordem das coisas.

não sei desenhar raízes

 

o suporte orgânico do silêncio

guarda a memória das partes

e refiro-me à ponta dos dedos

que como raízes

inventam de novo as palavras.

santiago

 

escapo-me à confusão dos âmagos

para contemplar as plantas exóticas,

a plumagem âmbar dos pássaros

e os privilégios verbais do espírito.

cedo aprendi a falar com as polpas dos dedos,

são nadadores exímios de danças curtas.

na meia sombra, os impulsos

têm raízes e a folhagem tenra.

nunca bebi nem fogo nem tempo,

mas entendi que um coração extasiado em suor

é o melhor material de observação

porque amplia o modo como nos metemos para dentro

ou procuramos sair de nós.

truque dos antípodas

 

 

Pontualmente

e as extremidades são só coisas naturais

Como dizer que os cardos são afagos

que os flamingos voam para saturno

e que é na humidade da terra

que se completa o mundo.

 

interlúdio

 

que ambíguo modo é este

esconso prazer do vício

sem saber se me existes ou se me aconteces. 

 

 

 

 

cabelo negro

 

foi assim que pensaste que eu ficava bem,

a usar os domingos lentos no meu cabelo negro.

os domingos como flores escondidas 

no emaranhado do meu cabelo negro.

 

com os teus domingos invertebrados, 

ajeitei eu o meu cabelo negro.

os teus domingos, pétalas num caule molhado.

 

 

 

 

arousa

 

daqui a pouco

o silêncio.

 

suponho que é o que acontece

quando as rochas adormecem.

 

 

 

visão clara num dia claro

 

subi para os teus ombros para ver melhor.

depois desci e pensei:

 

“foi mesmo um prazer conhecer-me”.

 

 

 

 

 

domingo

 

não preciso que me ensines a cair

nunca tive medo de alturas

e salto sempre à altura dos meus próprios ombros.

 

 

 

ensaios para penedos

 

I. 

digo do teu corpo

meu corpo

os contornos de um penedo

 

II. 

já reparaste, meu bem

que o meu corpo deitado

tem o contorno de um penedo nunca acabado?

 

 

 

 

cintura

 

as minhas pernas

como braços de medusa

são tranças

com a tua cintura

 

 

homeostasia

 

encontrei-me contigo

como tempo como fome

como malva como sal

como loucura como deusa

como utopia como sonho libertário

 

não disfarço

nem o halo nem o cansaço

nem a placidez do ócio

nem a confusão às cegas.

quando o dia é igual à noite

ponho os corpos no seu lugar

e deixo ser, como pediste,

que a homeostasia é necessária

para as peles se conhecerem.

 

 

auto-biografia

 

 

de cintura estável

nasci das ervas verdes

e logo soube que a madrugada

era minha companheira

por isso pedi-lhe o que não devia

 

tapei a nudez com o cabelo

onde tenho vestígio

tenho também riqueza.

e enquanto a tua mão desliza,

a minha pede por mais,

contorna e ainda não acabei.

 

 

hiato

 

o solstício a negação

a teimosia a exactidão

a cidade o vocábulo

o erro a palpitação

 

a água a linguagem

a noite a passagem

a procura o poema

o movimento a paisagem

 

todas as vontades interditas

no mesmo depoimento: 

o hiato.

 

 

 

em minúsculas

 

não acordes nem te mexas mais

deixa-te te estar assim como estás

totalmente ausente

por este mar acima.

 

mas como ser só uma

quando há partes tuas que me devoram

e o que seria dos meus braços cansados

se não fosse este sossego aos bocados.

 

prefiro-te em minúsculas

do que suspensa em inspirações.

 

 

setembro

 

observando apenas a intenção

reconheço-me como a intimidade

mais antiga serena dissonante

da espécie humana

 

quando o verão entrou em nós

ofereceste-me o outono

e eu dei-te a liberdade

do meu corpo desfeito em flores

 

essa mesma liberdade

encontrou a madrugada adormecida e

foi no seu eterno espreguiçar

que te afundaste em mim.

vidente

 

os encontros que adormecem

os amantes que desejam

os serões que se repetem

as bocas que não se cansam.

 

e enquanto sonhava, o embriagado perguntou:

“o amor ainda existe?”

 

a astrologia que já não explica

a vontade que dá fome

o silêncio que ainda mais só fica

aquele orgasmo que consome.

 

e eu, enquanto ouvia, embriagada perguntei:

“o amor ainda existe?”

 

os horóscopos, as cartas, os signos,

as previsões, os segredos, a lua a minguar

Tudo errado no expoente da leveza.

Sou da cor do nada a provar

mesmo assim não tenho nunca a certeza.

 

se o amor existe

tem no rosto a dependência

a língua quente

o peito obediente

o olhar paciente.

é esta a minha loucura que morre num canto:

entro em transe

e à procura da perfeição

acordo num novo romance.

 

 

 

 

 

sereia

 

misturei-me com as algas.

sem saber que me afogava,

fiz-me sereia

 

e desapareci.

 

 

a poesia não é surda

quando nela se deita a lua

para adormecer.

 

 

 

 

setembro

 

era beleza só beleza.

e ela sabia-o em qualquer lugar.

quando ela dizia qualquer coisa

a noite fazia-se de dia

no sossego da sombra vadia.

 

contamos histórias

embriagaste-me em insónias

observaste-me na minha nudez.

estrela luz touro que fugia

 

inspiramos ao mesmo tempo

ou um de cada vez, já não me lembro bem.

entretanto anoitecera

e enquanto inventavas saltos novos

eu ainda sonhava até ao fim de setembro.