encontrei-me contigo

como tempo como fome

como malva como sal

como loucura como deusa

como utopia como sonho libertário

 

não disfarço

nem o halo nem o cansaço

nem a placidez do ócio

nem a confusão às cegas.

quando o dia é igual à noite

ponho os corpos no seu lugar

e deixo ser, como pediste,

que a homeostasia é necessária

para as peles se conhecerem.

 

‘mayo’

 

 

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nativa

de cintura estável

nasci das ervas verdes

e logo soube que a madrugada

era minha companheira

por isso pedi-lhe o que não devia

 

tapei a nudez com o cabelo

onde tenho vestígio

tenho também riqueza.

e enquanto a tua mão desliza,

a minha pede por mais,

contorna e ainda não acabei.

 

‘nativa’

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fotografia: teresa melo

 

 

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autogenesis

o solstício a negação

a teimosia a exactidão

a cidade o vocábulo

o erro a palpitação

 

a água a linguagem

a noite a passagem

a procura o poema

o movimento a paisagem

 

todas as vontades interditas

no mesmo depoimento: 

o hiato.

 

 

‘hiato’

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fotografia: teresa melo

 

 

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semtitulo_tm

não acordes nem te mexas mais

deixa-te te estar assim como estás

totalmente ausente

por este mar acima.

 

mas como ser só uma

quando há partes tuas que me devoram

e o que seria dos meus braços cansados

se não fosse este sossego aos bocados.

 

prefiro-te em minúsculas

do que suspensa em inspirações.

 

 

‘em minúsculas’

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fotografia: teresa melo

 

 

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TM_NicolaZolin

observando apenas a intenção

reconheço-me como a intimidade

mais antiga serena dissonante

da espécie humana

 

quando o verão entrou em nós

ofereceste-me o outono

e eu dei-te a liberdade

do meu corpo desfeito em flores

 

essa mesma liberdade

encontrou a madrugada adormecida e

foi no seu eterno espreguiçar

que te afundaste em mim.

 

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fotografia: nicola zolin

 

 

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oamorexiste

os encontros que adormecem

os amantes que desejam

os serões que se repetem

as bocas que não se cansam.

 

e enquanto sonhava, o embriagado perguntou:

“o amor ainda existe?”

 

a astrologia que já não explica

a vontade que dá fome

o silêncio que ainda mais só fica

aquele orgasmo que consome.

 

e eu, enquanto ouvia, embriagada perguntei:

“o amor ainda existe?”

 

os horóscopos, as cartas, os signos,

as previsões, os segredos, a lua a minguar

Tudo errado no expoente da leveza.

Sou da cor do nada a provar

mesmo assim não tenho nunca a certeza.

 

se o amor existe

tem no rosto a dependência

a língua quente

o peito obediente

o olhar paciente.

é esta a minha loucura que morre num canto:

entro em transe

e à procura da perfeição

acordo num novo romance.

 

 

 

 

 

‘vidente’

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fotografia: teresa melo

 

 

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sea_goa

misturei-me com as algas.

sem saber que me afogava,

fiz-me sereia

 

e desapareci.

 

 

a poesia não é surda

quando nela se deita a lua

para adormecer.

 

 

 

 

‘sou sereia’

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fotografia: teresa melo

 

 

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setembro

era beleza só beleza.

e ela sabia-o em qualquer lugar.

quando ela dizia qualquer coisa

a noite fazia-se de dia

no sossego da sombra vadia.

 

contamos histórias

embriagaste-me em insónias

observaste-me na minha nudez.

estrela luz touro que fugia

 

inspiramos ao mesmo tempo

ou um de cada vez, já não me lembro bem.

entretanto anoitecera

e enquanto inventavas saltos novos

eu ainda sonhava até ao fim de setembro.

 

 

 

 

‘setembro’

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fotografia: teresa melo

 

 

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teresamelo-blog-02

Escrevo para compreender o que penso. Adoro partilhar histórias sobre pessoas, capturar os elementos naturais e conectá-los entre si. Uni-los. Isso posiciona-me no mundo.

Este espaço é sobre o meu processo sinuoso de auto-conhecimento. Acredito que a poesia é uma linguagem pura e isenta de regras. No entanto, não sei mais do que isto. Assim, concentro-me e vou tomando notas para transmitir uma miríade de experiências e inspirações. Às vezes até os meus próprios sonhos.

Porque é que escrevo? Porque vivo.